A Arte de Pensar: 10.° ano, Vol. 1

Capítulo 1
O que é a filosofia?

Como nunca estudaste filosofia na escola, talvez tenhas uma ideia vaga ou até errada sobre o assunto. Ou talvez não tenhas ideia nenhuma. Como é natural, ficarás a saber melhor o que é a filosofia depois de a teres estudado correctamente. Mas é conveniente dar-te já uma ideia do que é a filosofia. Deste modo, poderás orientar-te melhor na disciplina. É este o objectivo deste primeiro capítulo.

A Escola de Atenas, de Rafael (1483-1520) A filosofia é uma actividade dialogante que prossegue desde o século V a.C. Neste famoso fresco renascentista podemos ver uma repre-sentação ficcionada da discussão filosófica.

Provavelmente, estás habituado a definir as ciências como a história ou física em termos de objecto e método. Por exemplo:

Também a filosofia tem um objecto e um método de estudo. A filosofia tem como objecto os conceitos mais básicos que usamos nas ciências, nas artes, nas religiões e no dia-a-dia. A filosofia estuda conceitos como os seguintes: o bem moral, a arte, o conhecimento, a verdade, a realidade, etc. O seu método é a troca de argumentos, a discussão de ideias.

1. A filosofia em acção: um exemplo

Imagina que no meio de uma conversa qualquer, eu digo: «No fundo, é tudo relativo». Talvez já tenhas ouvido esta ideia muitas vezes. Talvez até tu próprio penses que é tudo relativo. A ideia de que tudo é relativo surge-nos naturalmente em certas circunstâncias, quando começamos a pensar em certos problemas. E é assim que surge a filosofia.

De Onde Vimos? O Que Somos? Para Onde Vamos? (pormenor), de Paul Gaugin (1848-1903). Gaugin representou assim a presença das interrogações filosóficas naturais num povo sem formação literária nem científica.

A filosofia (como as ciências, as artes e as religiões) surge da nossa capacidade natural para pensar. Não é algo que só surge quando vamos à escola ou quando lemos livros de filósofos muito antigos. Algumas pessoas começam a fazer perguntas de carácter filosófico por volta dos 13 ou 14 anos. Eis alguns exemplos:

Além disso, os problemas filosóficos surgem também da nossa reflexão sobre as ciências, as religiões e as artes. Eis alguns exemplos:

Apesar de a filosofia ser uma reflexão que surge naturalmente, nem toda a reflexão que surge naturalmente é filosófica. Muitas vezes temos respostas pessoais para perguntas filosóficas como «Qual é o sentido da vida?» ou «Será que é tudo relativo?». Essas respostas pessoais, contudo, ainda não são filosóficas. Podem ser o ponto de partida da reflexão filosófica; mas não são o ponto de chegada. Isto quer dizer que podes e deves partir das tuas convicções pessoais. Mas só começas a fazer filosofia quando exiges a ti mesmo justificações públicas para essas convicções. E essas justificações têm de resistir à crítica. Vamos ver o que isto quer dizer.

1.1. A filosofia é uma actividade crítica

A primeira coisa a fazer perante uma afirmação filosófica, como «Tudo é relativo», é tentar saber exactamente o que estamos a dizer. «Tudo» refere-se a quê? E o que quer dizer «relativo»? No estudo da filosofia, este trabalho de interpretação é crucial. Temos de saber com precisão o que realmente está a ser afirmado para podermos discutir essa afirmação. É por isso que no capítulo 2 iremos distinguir frases de proposições, e iremos ver o que é a ambiguidade e outras armadilhas que não nos permitem interpretar correctamente as ideias dos filósofos.

Se me perguntares o que quer dizer «tudo» e «relativo» no contexto da minha afirmação, posso responder assim:

«Tudo» refere-se a todas as verdades. O que eu defendo é que todas as verdades são relativas. E «relativo» quer dizer que as verdades mudam, ou variam; não são coisas fixas.

Agora já compreendemos melhor o que quer dizer «Tudo é relativo». Mas será então que, nesse sentido, é verdade que «Tudo é relativo»? Que razões temos para aceitar esta ideia? Por que razão não será melhor aceitar a negação desta ideia? É porque por vezes queremos negar ideias que no Capítulo 2 irás aprender a não errar ao negar certos tipos de afirmações.

O Sono da Razão Produz Monstros, de Francisco de Goya (1746-1828). O pintor espanhol não podia imaginar quão longe o adormecimento do intelecto poderia conduzir a humanidade — ao Holocausto.

Já estás a ver que não basta interpretar e compreender o que eu queria dizer com a afirmação «Tudo é relativo». É preciso ter uma atitude crítica em relação ao que foi dito. Será que tenho razão? Porquê? Ou será que estou enganado? E porquê?

Quando fazemos estas perguntas, estamos a exigir argumentos. Será que os argumentos em que me baseio ao pensar que tudo é relativo são suficientemente fortes para apoiar esta ideia? Ou são apenas confusos e desinteressantes? A argumentação é o coração da filosofia e é por isso que a filosofia é uma atitude crítica. É por isso também que no Capítulo 2 vamos aprender a distinguir os bons dos maus argumentos.

Porque a filosofia é uma actividade crítica, avalia cuidadosamente os nossos preconceitos mais básicos. Isto faz da filosofia uma actividade um pouco melindrosa. Em geral, temos tendência para nos agarrarmos acriticamente aos nossos preconceitos, porque eles condicionam a maneira como vemos o mundo e como vivemos a vida. A filosofia, pelo contrário, exige abertura de espírito e disponibilidade para pensar livremente.

O facto de a filosofia ser uma actividade crítica coloca-te numa posição muito diferente, como estudante, daquela que te é exigida nas outras disciplinas. Em filosofia, tens a liberdade de defender as tuas ideias. Tanto podes defender que Deus existe como que não existe; tanto podes defender que o aborto deve ser permitido como que não o deve ser. Até podes defender que a filosofia é uma ilusão e um absurdo.

Nesta disciplina, não te pedimos que te limites a repetir o que diz o teu professor. O que pedimos é que aprendas a pensar. E pensar implica apresentar argumentos. Tens a liberdade de defender o que quiseres, mas tens de adoptar uma atitude crítica. Isto significa o seguinte:

  1. Tens de sustentar o que defendes com bons argumentos.
  2. Tens de aceitar discutir os teus argumentos.

O objectivo é que sejas tu a pensar filosoficamente; mas para poderes pensar filosoficamente terás de saber usar um conjunto de instrumentos que te permitirão pensar de forma mais organizada e sistemática. E terás de compreender correctamente as ideias que iremos estudar — mesmo que aches que estão erradas. Ser conseguires dizer de forma clara, articulada e fundamentada em bons argumentos por que razão estão erradas, já estarás a fazer filosofia.

Voltemos agora à minha ideia de que tudo é relativo. Que argumentos tenho a seu favor? Se me fizeres esta pergunta, posso responder assim:

Ao longo dos séculos, verificamos que o que pensamos ser verdade vai mudando. Primeiro, pensávamos que a Terra estava no centro do universo; depois, que não estava. Primeiro, pensávamos que o cristianismo era a única religião verdadeira, e que o Deus cristão tinha de ser imposto pela força. Depois, verificámos que há várias religiões e que todas têm o direito a existir. Em suma, o que hoje pensamos que é verdade, amanhã pensamos que é falso, e é por isso que eu digo eu é tudo relativo.

Esta resposta é uma tentativa de justificação da ideia de que tudo é relativo. Mas será uma boa justificação? O teu trabalho em filosofia é discutir os meus argumentos. Poderias começar por fazer notar que esta justificação parece misturar duas coisas diferentes: o progresso científico e a tolerância religiosa. E por isso talvez fosse vantajoso ver cada uma dessas coisas em separado.

O Mar Glacial, de Caspar David Friedrich (1774-1840). A atitude crítica da filosofia é muitas vezes comparada à frieza do raciocínio, mas nada há de mais humano do que o pensamento justo que a filosofia promove.

Poderias começar pela primeira, perguntando se é mesmo verdade que o progresso científico mostra que as verdades são todas relativas. Pelo contrário, poderias dizer, se tudo fosse relativo, não haveria realmente progresso científico; haveria apenas uma mudança de teorias científicas. As teorias antigas seriam tão boas como as modernas. Mas se isto fosse verdade, que razões teríamos nós para mudar de teorias?

Eu poderia responder que somos forçados a mudar de teorias por vários motivos. Por exemplo, quando um certo grupo de cientistas se quer destacar, pode apresentar uma nova teoria revolucionária e fazer tudo para ver a sua teoria ser aceite. Mas isto nada nos diz sobre o valor intrínseco da nova teoria. A nova teoria é tão boa como a velha; são apenas diferentes.

Já vês que a filosofia é uma actividade dialogante: consiste em trocar e discutir ideias. A diferença entre uma discussão filosófica e uma gritaria, por exemplo, é esta: em filosofia discutimos para chegar à verdade das coisas, independentemente de saber quem «ganha» a discussão; numa gritaria discute-se para «ganhar» a discussão, independentemente de saber de que lado está a verdade.

A filosofia é uma actividade crítica

    Questões de revisão

  1. O que é um preconceito? Dá alguns exemplos, explicando por que razão são preconceitos.
  2. Para que fins precisamos de argumentos na filosofia?
  3. O que precisas de aceitar para poderes ter uma atitude crítica?
  4. Qual é a diferença entre justificar as nossas respostas pessoais e ter uma atitude crítica?

    Problemas

  1. «Não há qualquer interesse em estudar filosofia, porque cada qual tem a sua filosofia pessoal». Concordas? Porquê?
  2. «A atitude crítica é apenas dizer mal dos outros». Concordas? Porquê?
  3. «Desde que uma pessoa seja extravagante, é crítica». Concordas? Porquê?

1.2. O pensamento filosófico é consequente

Ao reflectires sobre a minha resposta às tuas objecções poderias tentar saber até que ponto o que a minha teoria implica é aceitável. E poderias perguntar-me: «Será que a ideia de que tudo é relativo é também relativa?» Como é óbvio, eu teria de dizer que sim, pois acabei de defender que todas as ideias são relativas. Mas então a minha ideia não é realmente verdadeira; só é relativamente verdadeira. É verdadeira para umas pessoas e falsa para outras. Mas nesse caso caio em contradição, pois tenho de admitir que a minha ideia é falsa, de certos pontos de vista. Nomeadamente, do teu. E tenho de admitir que tu tens tanta razão como eu.

Imagina agora que quando fazes notar que nesse caso a minha própria opinião não pode ser verdadeira, eu digo que não. Há algo de errado comigo.

Tentar o Impossível, de René Magritte (1898-1967). Defender uma ideia e não aceitar as suas consequências lógicas é tentar o impossível.

O que está errado comigo é que não estou a ser consequente. Ser consequente é aceitar as consequências das nossas ideias. Não estou a ser consequente porque não quero aceitar uma consequência da minha ideia, só porque é desagradável para o que estou a defender. Isto é pensamento irresponsável.

O pensamento filosófico é consequente. Isto significa que apesar de seres livre para defenderes as posições que quiseres, terás de ser responsável pelas consequências do que defendes. Se defenderes que toda a vida é sagrada e que isso quer dizer que nunca devemos matar um ser vivo, não podes ao mesmo tempo defender que se pode comer salada de alface. Se defendes que tudo é relativo e que não há verdades, não podes defender que a tua convicção é verdadeira.

Se quiseres pensar filosoficamente terás de ser responsável pelas consequências das tuas ideias; e se as tuas ideias tiverem consequências falsas, improváveis, absurdas ou de outra forma difíceis de aceitar, terás muito provavelmente de mudar de ideias.

A nossa pequena discussão sobre o relativismo já permitiu ver que há três elementos na filosofia:

O problema, no nosso caso, era saber qual é a natureza da verdade. Eu estava a defender a teoria ou a posição de que a verdade é relativa. E apresentei alguns argumentos a seu favor. Depois tu respondeste a esses argumentos, o que me levou a apresentar outros argumentos, aos quais tu respondeste — e assim por diante. Os filósofos, ao longo dos séculos, têm proposto teorias que tentam resolver os problemas filosóficos. Essas teorias apoiam-se em argumentos.

O teu papel perante os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia é duplo:

  1. Saber formulá-los claramente.
  2. Saber discuti-los com rigor.
O pensamento filosófico é consequente

    Questões de revisão

  1. O que significa dizer que o pensamento filosófico é consequente? Dá um exemplo.
  2. Dá um exemplo de uma convicção inconsequente.

    Problemas

  1. «O que uma pessoa diz com o cérebro, nega na sua vida concreta». Concordas? Porquê?
  2. Qual é a relação entre os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia?

1.3. A filosofia é um estudo a priori

Quando começamos a discutir a ideia de que tudo é relativo, percebemos que ela tem uma característica especial: nada há na experiência empírica que nos permite resolver o problema. Só pelo pensamento podemos tentar resolver o problema. É porque isto acontece com os problemas filosóficos que dizemos que a filosofia não é um estudo empírico; é um estudo a priori. A melhor maneira de perceber o que isto quer dizer é através de um exemplo.

Imagina que queres saber se há vida em Marte. Não é possível resolver este problema unicamente através do pensamento. É preciso dispor dos dados enviados pelas sondas que foram para Marte, fazer observações e medições, etc. Todas essas coisas fazem parte da experiência empírica: são maneiras de recolher informação acerca do mundo.

Homem Lendo à Luz do Candeeiro, de Georg Friedrich Kersting (1785-1847). A filosofia é um estudo a priori, ao contrário das ciências empíricas como a história ou a biologia.

Mas os problemas da filosofia não se resolvem olhando para o mundo para recolher informação. Não podemos decidir se é tudo relativo ou se a vida faz sentido recolhendo informação do mundo. É por isso que dizemos que a filosofia é um estudo a priori. Queremos dizer que a filosofia se faz unicamente com o pensamento.

Todavia, isto não significa que não podemos usar informação sobre o mundo. Na verdade, sempre que isso é relevante, temos de usar informação sobre o mundo. O estudo filosófico é a priori, mas temos de ter informações sobre tudo o que for importante para a solução dos problemas que estamos a tratar. Muitas vezes essa informação é fornecida pelas ciências, pelas artes ou pelas religiões. Não podemos discutir filosofia da religião sem nada saber de religião. Nem podemos discutir filosofia da arte sem nada saber de arte.

Quando chegamos a este ponto podes pensar que o relativismo, como todas as outras ideias filosóficas, não passa de uma confusão e que nada há para discutir — precisamente porque é algo que não podemos decidir recorrendo à experiência. Todavia, é curioso que esta é também uma posição filosófica — e uma posição que não se apoia na experiência. Como poderemos decidir se é mesmo verdade que o relativismo e a filosofia são uma perda de tempo porque nunca se pode chegar a lado nenhum? Como podemos saber que não podemos chegar a lado nenhum?

Quando começamos a pensar nas razões que nos levam a pensar que em filosofia nunca se chega a lado nenhum começamos a fazer filosofia. É por isso que a filosofia é inevitável. É inevitável porque não é mais do que a procura sistemática de justificações sensatas para as nossas ideias mais básicas — mesmo as nossas ideias acerca da própria filosofia. É neste sentido que a filosofia se opõe ao dogmatismo: nenhuma ideia tem o direito de suplantar quaisquer outras ideias, enquanto não mostrar que é realmente melhor do que as outras.

  • Glossário: A priori.

    A filosofia é um estudo a priori

      Questões de revisão

    1. O que significa dizer que a filosofia é um estudo a priori?
    2. «Uma vez que a filosofia é a priori, não precisamos de informação empírica para fazer filosofia». Concordas? Porquê?
    3. Dá dois exemplos de problemas de carácter conceptual e dois exemplos de problemas de carácter empírico.
    4. Por que razão a filosofia se opõe ao dogmatismo?
    5. «A filosofia é inevitável». Concordas? Porquê?

      Problemas

    1. «Dado que tanto a filosofia como a matemática são a priori, não há diferença entre as duas». Concordas? Porquê?
    2. «A filosofia é inútil porque é tudo subjectivo e nunca se chega a lado nenhum». Concordas? Porquê?
    3. «A filosofia é inútil porque é tudo subjectivo e nunca se chega a lado nenhum». Achas que esta afirmação é objectiva ou subjectiva? Porquê?

    1.4. A filosofia é diferente da história

    Como é óbvio, muitos filósofos defenderam a ideia de que tudo é relativo. O primeiro a defendê-lo parece ter sido Protágoras de Abdera (cerca de 490-420 a.C.), na Grécia antiga. Muitos outros filósofos e pensadores defenderam diferentes versões desta ideia, incluindo no século XX e hoje em dia.

    Filósofo a Ler, de Rembrandt (1606-69). Estudar filosofia implica ler as obras dos filósofos antigos e modernos, para podermos discutir as suas ideias.

    Quando discutimos uma ideia filosófica verificamos muitas vezes que essa ideia tem uma história; houve outras pessoas que a defenderam ou atacaram. É por isso importante saber o que os grandes filósofos pensaram. Nada há de extraordinário nisto. Se estás preocupado em saber se o relativismo é ou não aceitável, é uma boa ideia tentar saber o que as outras pessoas pensaram sobre isso. Afinal, pode ser que o que elas pensaram te ajude a pensar melhor — quer concordes, quer discordes delas.

    Todavia, é preciso distinguir claramente o estudo da filosofia do estudo da história da filosofia. Em história da filosofia estudamos o que os filósofos dizem só para saber o que eles dizem. Na filosofia estudamos o que os filósofos dizem para discutir as suas ideias. Mas é claro que só podemos discutir as suas ideias se as soubermos formular bem. Estudar filosofia é como estudar música e estudar história da filosofia é como estudar história da música. Num caso, aprendemos a tocar um instrumento ou a compor peças musicais; no outro, aprendemos apenas a apreciar a música do passado. Num caso, aprendemos a discutir ideias e a propor ideias e a defendê-las; no outro, aprendemos apenas a formular as ideias dos outros.

    2. Para que serve a filosofia?

    A filosofia responde a problemas que surgem da nossa capacidade natural para pensar. O mesmo acontece com a ciência, a religião e a arte. Portanto, em grande medida, a filosofia serve para o mesmo que serve a ciência, a religião e a arte: serve para compreender melhor o mundo, os outros e nós mesmos.

    Mas será que só serve para isso? Afinal, nas artes, nas religiões e nas ciências, fazem-se coisas úteis — não nos limitamos a compreender melhor o mundo. Por exemplo:

    Também a filosofia não se limita a alargar a nossa compreensão. A compreensão que a filosofia nos oferece do mundo, de nós e dos outros ajuda-nos a mudar a nossa vida. Vejamos dois exemplos.

    John Stuart Mill (1806-1879) Filósofo inglês, autor do clássico Da Liberdade (1859), onde defende a liberdade de expressão e pensamento.

    Em 1869 um importante filósofo inglês chamado John Stuart Millpublicou um livro intitulado A Submissão das Mulheres. Neste livro, Mill defendia, com argumentos filosóficos, a igualdade política e social das mulheres. Hoje, parece-nos óbvio que as mulheres não devem ser discriminadas em nenhum aspecto da vida social. A filosofia pode mudar as nossas vidas porque pode mudar as nossas convicções.

    Em 1975, Peter Singer, um importante filósofo contemporâneo, publicou um livro com o título Libertação Animal. Nesse livro, Singer procura mostrar que o modo como tratamos os animais na indústria pecuária e na ciência é moralmente indefensável; os animais não podem ser tratados como se fossem meros objectos. Em resultado do seu estudo, os movimentos de libertação animal ganharam legitimidade. Hoje, muitas das maiores empresas deixaram de testar os seus produtos em animais. A filosofia pode mudar as nossas vidas porque pode mudar as nossas convicções.

    Os seres humanos entregam-se a diferentes actividades. A religião, a ciência, a arte e a filosofia têm cada uma a sua utilidade.

    Em suma: as razões pelas quais a filosofia serve para alguma coisa são a razões pelas quais as artes, as ciências e as religiões servem para alguma coisa.

    Todavia, é verdade que muitos dos problemas, teorias e argumentos da filosofia não têm qualquer utilidade prática. Mas também a maior parte do que constitui as religiões, as artes e as ciências não tem qualquer utilidade prática. Mas, mesmo assim, essas coisas podem ter valor.

    Peter Singer. Filósofo australiano nascido em 1946, especialista em ética aplicada, uma área da filosofia que ajudou a revitalizar.

    As coisas sem utilidade prática podem ter valor porque o conhecimento é algo suficientemente importante para ter um valor próprio. Nada ganhamos em conhecer a anatomia dos dinossáurios que se extinguiram há 65 milhões de anos, nada ganhamos em saber como aconteceu o Big Bang. Mas desconhecer todas essas coisas é viver uma vida mais pobre e mais provinciana. É por isso que há pessoas que gostam de alargar o conhecimento e a compreensão, independentemente de isso servir ou não para alguma coisa. E isto é algo que não acontece apenas aos filósofos; acontece aos físicos, aos biólogos, aos músicos, aos escritores, etc.

    Em suma, a filosofia tem valor, mesmo que na sua maior parte não tenha qualquer utilidade prática, porque o conhecimento é um valor em si.

    Por outro lado, nunca podemos saber quando uma ideia aparentemente inútil pode vir a ser útil. A lógica, por exemplo, parecia uma área do conhecimento completamente inútil. Mas hoje temos computadores graças aos estudos levados a cabo pelos especialistas em lógica. Logo, mesmo que só as coisas úteis tivessem valor, nunca poderíamos saber à partida quais das nossas ideias se viriam a revelar úteis.

    Acresce que a filosofia consiste, em grande parte, em discutir ideias com argumentos rigorosos. Isto dá-lhe uma utilidade muito importante: quem for capaz de discutir filosofia claramente, será capaz de discutir claramente qualquer assunto (desde que disponha da informação relevante). A filosofia é útil para a vida pública de um país porque nos ensina a pensar melhor.

    A filosofia exercita as nossas capacidades argumentativas. Ficamos com uma capacidade acrescida para avaliar e discutir ideias, argumentos e problemas. Do mesmo modo que quem estuda pintura fica com um olhar mais sensível às cores e formas, quem estuda filosofia fica mais sensível ao modo como fundamentamos as nossas convicções e decisões.

    Quem sabe argumentar bem toma melhores decisões, porque as decisões que tomamos são baseadas em argumentos. E esses argumentos podem ser melhores ou piores. Todos queremos melhores decisões (e portanto melhores argumentos) quando essas decisões afectam a nossa vida. A filosofia pode ajudar-nos a tomar fazer isso.

    Para que serve a filosofia?

      Questões de revisão

    1. Será que a filosofia se limita a alargar a nossa compreensão do mundo?
    2. Em que aspectos a filosofia pode ser útil?
    3. «Para uma actividade ter valor não precisa de ser útil». Concordas? Porquê?

      Problemas

    1. «A filosofia não serve para nada». Concordas? Porquê?
    2. «Nenhuma filosofia do mundo pode mudar a nossa vida». Concordas? Porquê?
    3. «A filosofia responde à nossa curiosidade natural e não precisa de ser útil». Concordas? Porquê?
    4. «Mesmo que só as coisas úteis tivessem valor, teríamos de fazer as coisas aparentemente inúteis, porque nunca podemos saber quando podem vir a ser úteis». Concordas? Porquê?

    Leituras

    1. Aprender a Pensar

    Immanuel Kant (1724-1804). A filosofia de Kant tornou-se uma referência para os séculos vindouros. As suas ideias sobre a natureza da ética e do conhecimento continuam a ser extremamente influentes.

    Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida.

    Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública.

    […] Em suma, o entendimento não deve aprender pensamentos mas a pensar. Deve ser conduzido, se assim nos quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar.

    A natureza peculiar da própria filosofia exige um método de ensino assim. Mas visto que a filosofia é, estritamente falando, uma ocupação apenas para aqueles que já atingiram a maturidade, não é de espantar que se levantem dificuldades quando se tenta adaptá-la às capacidades menos exercitadas dos jovens. O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. […] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: «Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê-lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos». Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, […] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de instrução próprio da filosofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade (de zhtein). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só quando a razão já adquiriu mais prática, e apenas em algumas áreas, é que este método se torna dogmático, isto é, decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na verdade, contra ele. O que o aluno realmente procura é proficiência no método de reflectir e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo — isso terá de ser considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método.

    Immanuel Kant, «Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766», pp. 2:306-7.

      Perguntas
    1. Qual é o objectivo do estudo da filosofia, segundo o autor?
    2. Para o autor aprender filosofia é diferente de aprender a filosofar. Qual é a diferença?
    3. «O objectivo do estudo da filosofia é saber o que os filósofos disseram e nada mais». Concordas? Porquê?

    2. O Que é um Filósofo?

    Mary Warnock. Nascida em 1924, esta filósofa britânica foi professora em Oxford e lutou pela causa da educação. Especializou-se em ética existencialista.

    «O que faz de alguém um filósofo, além de ser considerado como tal pela universidade?» Primeiro, penso que um autor tem de dar atenção a questões com um alto grau de generalidade, e tem de se sentir à vontade com as ideias abstractas. Não é suficiente procurar a verdade, pois podemos estabelecer a verdade com respeito a factos particulares; isso pode ser o objectivo dos historiadores, ou dos romancistas que procuram dizer de forma imaginativa como as coisas são, num certo sentido. Um filósofo diria também sem dúvida que procura a verdade, mas está interessado em seja o que for que está por detrás dos factos particulares da experiência, dos pormenores da história; um filósofo ocupa-se do significado subjacente da linguagem que nós usamos habitualmente e sem pensar, as categorias em função das quais organizamos a nossa experiência. Assim, esse filósofo ou filósofa diria não apenas que procura a verdade, mas que procura uma verdade, ou teoria, que explique o particular e o pormenor e o quotidiano.

    Um grande filósofo que exemplifica estas características foi o escocês David Hume. Nunca desempenhou quaisquer funções académicas (apesar de uma vez o ter tentado infrutiferamente); a maior parte dos seus escritos pertencia a esse tipo particularmente escocês, o ensaio; e os seus ensaios tratavam de vários temas sociais, políticos e económicos. Mas a sua grande obra filosófica, o Tratado da Natureza Humana, que ele terminou quando tinha apenas 26 anos, foi concebida para estabelecer os fundamentos de uma ciência empírica genuína da natureza humana. A partir destes fundamentos Hume esperava que se pudesse construir uma elucidação de todo o conhecimento humano, incluindo o conhecimento científico, e de toda a moral, incluindo a moral política. Aqui temos generalidade, e de facto uma enorme ambição explicativa.

    Hume satisfaz também outro critério pelo qual medimos um verdadeiro filósofo: ocupava-se não apenas de apresentar as suas ideias, mas também de argumentar a seu favor. Esta atitude tem conduzido quase sempre, entre os filósofos, a um interesse apaixonado pelas ideias uns dos outros; e tem levado os filósofos a discordar, e se possível a refutar, os argumentos dos outros filósofos; e também a expor teorias por meio de diálogos, falados ou escritos. Por vezes, como no caso de Platão, Berkeley ou Hume, estes diálogos são ficcionais; por vezes são reais, e tomaram a forma de respostas a objecções, como no caso de Descartes, ou de troca de correspondência. Os filósofos são por natureza faladores e epistolares; só raramente preferem sentar-se e pensar, isolados dos seus pares.

    Mary Warnock, Mulheres Filósofas, 1996, pp. xxix-xxx.

      Perguntas
    1. Quais são as duas características dos filósofos que a autora apresenta?
    2. Que significa dizer que a generalidade é uma das características da filosofia?
    3. Qual é a razão que leva os filósofos a dialogar, segundo a autora?
    4. «Um filósofo solitário não é um filósofo». Concordas? Porquê?
    5. «Nem toda a filosofia passa pela argumentação». Concordas? Porquê?

    3. O Valor da Filosofia

    Bertrand Russell (1872-1970). Filósofo e lógico inglês, as ideias de Russell mudaram o rumo da filosofia do século XX. Ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1950.

    O valor da filosofia encontra-se, de facto, na sua própria incerteza. O homem sem rudimentos de filosofia passa pela vida encarcerado nos preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais do seu tempo ou da sua nação, e de convicções que se desenvolveram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento da sua razão ponderada. Para tal homem, o mundo tem tendência a tornar-se definido, finito, óbvio; os objectos comuns não levantam questões, e as possibilidades estranhas são desdenhosamente rejeitadas.

    Mal começamos a filosofar, pelo contrário, descobrimos […] que até as coisas mais corriqueiras levantam problemas a que só podemos dar respostas muito incompletas. A filosofia, apesar de ser incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, tem a capacidade de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, apesar de diminuir a nossa sensação de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta em muito o nosso conhecimento do que elas podem ser; ela elimina o dogmatismo algo arrogante daqueles que nunca viajaram no território da dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido de deslumbramento ao mostrar coisas familiares sob um aspecto estranho.

    Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, 1912, p. 90.

      Perguntas
    1. Segundo o autor, qual é o valor da filosofia?
    2. Que razões nos dá o autor para aceitar as suas ideias?
    3. Concordas com o autor? Porquê?
    4. «A filosofia não tem valor porque não nos dá respostas». Concordas? Porquê?

    O que é a filosofia?

      Glossário

    • A priori.

      Estudo complementar

    • Blackburn, Simon «Introdução», in Pense (Gradiva, 2001) Este capítulo explica o que é a filosofia e mostra qual é o seu valor.
    • Murcho, Desidério «O Que é a Filosofia?», in A Natureza da Filosofia e o seu Ensino. Este capítulo explica mais em pormenor o que é a filosofia.
    • Warburton, Nigel «Introdução», in Elementos Básicos de Filosofia (Gradiva, 1998). Este capítulo explica por que razão vale a pena estudar filosofia.