1. O cepticismo de Hume
O cepticismo quanto ao conhecimento não implica o cepticismo quanto às crenças racionais. Por esta razão, é possível abandonar a tese de que temos conhecimento sem com isso abdicar da ideia de que as nossas crenças são racionais.
Há uma segunda forma de cepticismo que é muito mais perturbante. Esta forma de cepticismo rejeita a nossa pretensão à racionalidade. Segundo esta forma mais radical de cepticismo, não temos uma justificação racional para acreditar naquilo em que acreditamos. É este tipo de cepticismo que está presente nos pontos de vista de Hume sobre a indução. Hume defendeu que as crenças que temos sobre o futuro e as crenças que temos sobre generalizações não podem ser justificadas racionalmente. Não se dá apenas o caso de não termos a certeza de que o sol vai nascer amanhã. E não se dá apenas o caso de não sabermos que o sol vai nascer amanhã. Segundo Hume, não temos nenhuma justificação racional para esta crença nem para qualquer outra expectativa sobre o futuro.
2. A tese céptica de Hume sobre a indução
Baseados em dados que não são dedutivamente conclusivos, formamos constantemente expectativas sobre como vai ser o futuro e sobre que generalizações (proposições com a forma "Todos os As são B") são verdadeiras. As nossas crenças sobre o futuro baseiam-se na percepção e na memória, mas não podemos deduzir como vai ser o futuro a partir de premissas que descrevem apenas o presente e o passado.
Concentremo-nos num exemplo para ficarmos esclarecidos quanto a este ponto simples. Suponha-se que eu observei muitas esmeraldas e descobri que cada uma delas é verde. Posso então formular a previsão "A próxima esmeralda que vou observar é verde"; ou talvez formule a generalização "Todas as esmeraldas são verdes".
O senso comum diz que somos racionais ao acreditar em previsões e generalizações se as nossas crenças se basearem em muitos dados. Olhar para muitas esmeraldas e descobrir que cada uma delas é verde parece justificar a minha expectativa de que a próxima esmeralda que vou examinar é verde. Mas é óbvio que não podemos deduzir generalizações ou previsões a partir das observações que fizemos no passado. Mesmo assim, os seguintes argumentos parecem argumentos não dedutivos perfeitamente racionais:
| (GEN) | Observei inúmeras esmeraldas, e cada uma delas era verde. Logo, todas as esmeraldas são verdes. |
| (PREV) | Observei inúmeras esmeraldas, e cada uma delas era verde. Logo, a próxima esmeralda que vou observar é verde. |
Tanto no argumento por generalização (GEN) como no argumento da previsão (PREV), pensamos que a conclusão atingida está racionalmente justificada pelas premissas. Pensamos que não é um simples preconceito defender, em cada caso, que a premissa proporciona boas razões para aceitar a conclusão. A tese de Hume é a de que esta convicção não pode ser defendida racionalmente.
É importante compreender que a tese de Hume vai para além da ideia pacífica de que os argumentos (GEN) e (PREV) que acabámos de indicar não são dedutivamente válidos. Isso é óbvio. Hume está antes a dizer que as premissas desses argumentos não justificam racionalmente as suas conclusões. O ponto de vista de Hume é o de que não há absolutamente qualquer justificação racional para as nossas crenças que são generalizações ou previsões.
O ponto de vista de Hume é o de que considerar que tais premissas dão boas razões para acreditar em tais conclusões é apenas um hábito nosso. Não podemos abandonar este hábito; faz parte da natureza humana esperar que o futuro se assemelhe ao passado. Mas é um hábito que não podemos defender racionalmente. Quando o céptico nos desafia para justificar racionalmente este padrão do nosso pensamento, só podemos dizer que é desta maneira que os seres humanos de facto funcionam. Não podemos produzir um bom argumento para justificar racionalmente este hábito da mente.
3. O argumento de Hume segundo o qual a indução não pode ser justificada racionalmente
Como chegou Hume a esta conclusão surpreendente sobre a indução? Hume pensou que os argumentos acima indicados (GEN e PREV) requerem uma premissa adicional. Tal como estão, a premissa não apoia a conclusão. Se queremos que a observação apoie a generalização ou a previsão, temos que presumir que o futuro vai assemelhar-se ao passado. A este pressuposto Hume chama Princípio da Uniformidade da Natureza (PUN).
Hume pensou que este princípio desempenha um papel indispensável em qualquer argumento indutivo que fazemos. O exemplo acima indicado diz respeito à cor das esmeraldas. Considere-se, no entanto, a crença de que o Sol vai nascer amanhã. Esta crença de previsão baseia-se na premissa de que o Sol nasceu em cada um dos dias em que nos demos ao trabalho de fazer uma observação. Por que devem estas observações do passado apoiar a previsão que faço relativamente a amanhã? Hume pensou que tenho de presumir que a natureza é uniforme que o futuro vai assemelhar-se ao passado. Hume diz que, sem este pressuposto, o passado não seria um guia para o futuro.
Deste modo, qualquer argumento indutivo pressupõe o PUN: temos que presumir o PUN para que a premissa observacional apoie a previsão ou generalização enunciada na conclusão do argumento. Isto significa que, se a conclusão a que chegamos for racionalmente defensável, então tem de estar disponível um bom argumento para pensar que o PUN é verdadeiro. Se o PUN não puder ser defendido, então tudo aquilo em que acreditamos que depende do pressuposto de que o PUN é verdadeiro também tem de ser indefensável.
Podemos agora apresentar o argumento céptico de Hume:
4. Por que não pode o PUN ser justificado?
Vejamos mais cuidadosamente os passos 4-6 do argumento. Considere-se o que o PUN afirma; o princípio diz que o futuro vai assemelhar-se ao passado — as uniformidades do passado continuarão a verificar-se no futuro. Será que podemos saber que isto é verdade baseando-nos na indução? Se pudessemos, o argumento indutivo apresentar-se-ia da seguinte maneira:
Recordemos que Hume defende que todos os argumentos indutivos requerem que se presuma o PUN como premissa. Mas o argumento acima apresentado é indutivo. Note-se que se inserirmos o PUN como premissa, como Hume exige, o argumento torna-se circular — presume como premissa a própria proposição que tenta estabelecer como conclusão.
Então e o outro tipo de justificação? Poderemos dar uma justificação dedutiva para o PUN? Também aqui, Hume defende que a resposta é não. O argumento acima indicado não é dedutivamente válido; o princípio de uniformidade geral não pode ser deduzido a partir de observações que fizemos no passado.
Hume considera, e rejeita, um segundo tipo possível de argumento dedutivo. Poderá o PUN ser uma verdade por definição, uma verdade que possa ser deduzida a partir de definições dos termos que contém? Se o PUN fosse uma verdade por definição, teria o tipo de justificação a priori que "Todos os solteiros são não casados" possui. Hume rejeita esta ideia dizendo que não há qualquer "contradição" em supor que o universo deixasse subitamente de ser uniforme. Que as regularidades do passado continuarão no futuro não é uma verdade por definição, diz Hume.
5. Resumo do argumento de Hume
Deve agora estar claro como funciona o argumento céptico de Hume. Em primeiro lugar, há uma tese: qualquer argumento indutivo requer a premissa de que a natureza é uniforme. Em segundo lugar, Hume defende que não se pode dar qualquer justificação racional para a premissa. Defende esta asserção considerando três opções: (1) um argumento indutivo a favor do PUN; (2) uma dedução do PUN a partir de observações feitas no passado; (3) uma dedução do PUN a partir de definições. Afirma que nenhuma destas maneiras de defender o PUN vai funcionar. Isto significa que o PUN não pode ser justificado. Hume conclui que as inferências indutivas que fazemos não são racionalmente justificáveis.
Elliott Sober
Core Questions in Philosophy
Tradução de Pedro Galvão